Cisne Negro é um filme encantador… ou melhor: encantador e perturbador. Encantador por ser perturbador.

Ok, o que eu quero dizer é que o filme do Darren Aronofsky é cumulativamente qualitativo, justamente por que consegue muito bem fazer o seu papel: sutilmente torturar o público e botar ele pra raciocinar. Partindo disso, é pela excessiva quantidade de qualidades do filme que o escolhi para fazer um estudo de obra. Mas dessa vez para falar primariamente da fotografia do filme, até mesmo em função de outros fatores, como a direção de arte.

Aronofsky busca alcançar efeito no espectador através de metáforas e indicações visuais. Em Cisne Negro, a direção de arte é super discreta e incrivel. Há 3 meses comentei brevemente sobre o maravilhoso design de produção do filme no meu post sobre Direção de Arte, e a forma como ela é construída para fornecer informações sobre a personagem. Mas enfim, o trabalho é excelente e cerca desde cenários calorosos até o figurino de Nina que passa do branco para o preto, conforme a história cresce.

Entretanto, de que adiantaria todo esse trabalho se ele não fosse bem aproveitado? É aí que entram os cinematografistas para enquadrar as imagens, coordenar as luzes dos cenários, estabelecer uma paleta de cores, e etc. No caso de Cisne Negro, temos uma fotografia bastante inocente e sutilmente viciada. Nas cenas de dança são usados planos médios em movimento, ou seja, a câmera capta os personagens geralmente da cintura para cima e está sempre dinamizando com a dança, geralmente no sentido contrário, através de travellings. E isso é magistral, quem assistiu sabe como é gratificante ver os personagens dançando no filme. Além de ser extremamente funcional nas cenas finais (que mostram Nina sobre o palco), já que a câmera tem total foco nas reações da atriz, e não na apresentação em si. Enquanto isso, quando a protagonista está indo a algum lugar, a câmera a segue, como se estivesse a perseguindo, gravando de forma bastante intrusiva.

Plano médio

Entretanto, essas relações apresentadas não são generalizações. Algumas cenas do filme apresentam câmeras diferentes, alguns plongeés, outros planos médios recortados mas principalmente close-ups nas reações de Nina. Em outros casos, algumas cenas de danças são precedidas ou alternadas por planos gerais (e em alguns casos por planos de situação) para apresentar o meio em que a ação ocorre. E notem como a cena mais “abusada” do filme é gravada com certa distância, como se a personagem estivesse sendo observada.

São detalhes que parecem insignificantes, mas que constroem uma narrativa rica e prática para o nosso consciente (e subconsciente); uma contribuição elegante da combinação design de produção + fotografia (cinematografia). Vou resumir essa ideia em duas imagens de uma cena que dura menos de 3 segundos:


Eu poderia ficar falando por horas sobre as qualidades de Cisne Negro, mas com esse post vocês podem ter um gostinho do que o filme tem a oferecer. Vou deixar vocês descobrirem sozinhos as outras qualidades dele (e são muitas, ok?). Se não viu ainda, dá play aí no trailer:

Comentários

Demorei tanto pra ver esse filme, por subestimar por ser o famosinho do momento e pensar que não seria tão legal assim, e por preguiça mesmo :P
Mas ele é realmente incrível. Quem não viu está perdendo.

Eu também não vi, acredita? (O post é do Nivaldo). Acho até que tenho ele aqui, depois que eu revisei o post fiquei com vontade de ver, me pareceu mais interessante.

Meu caso foi parecido com o seu. Baixei ele e ficou um tempão aqui no meu computador, baixava e via até outros filmes, mas não via ele. Vi o inicio um dia e não terminei de ver – o inicio é um pouco parado – por preguiça, só depois mesmo que parei um dia pra ver ele todo e curti muito ^^

Não sei se sou inocente demais, mas tive pesadelos com esse filme… Mas falando da parte técnica, ele é muito bom mesmo.

Nivaldo, parabéns pelo post, foi excelente! “Cisne Negro” é um dos melhores filmes que assisti recentemente, gostei tanto quando vi que fui no cinema mais duas vezes conferir. Adorei os comentários que fez sobre a produção que foi realmente fantástica e essencial para o efeito final do filme.

Zé, vi um documentário sobre a criação do cinema ontem que pode te interessar. Não é um daqueles documentários chatos, tem uma estrutura narrativa mais pessoal e dinâmica. Se chama “Enfim, o cinema” e fala da criação da reprodução de imagem até chegar ao George Mélies (de La voyage dans la lune), que foi de fato o primeira produzir filmes parecidos com o que temos hoje.

A fotografia teve uma importância ímpar, junto com a Física, nos estudos de produção de imagem. É muito bom. (:

Que ele é perturbador e encantador, eu já sabia haha. A primeira vez que vi foi no cinema e realmente, fiquei tão chocada (com os personagens, a trama etc) que nem conseguia comentar direito sobre o filme.
Mas nunca tinha parado pra pensar direito na direção de arte e no jeito em que tudo foi filmado. É surpreendente como os detalhes acrecentam ao ambiente que se quer criar no filme. Muito bom o post! :)

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